Microerosões

2020

O projeto microerosões surge de uma busca pessoal por alternativas à percepção do espaço que nos engloba, considerando a necessidade primeira de uma socialização mais afetiva para com o mundo. A erosão, como processo de mudança, de transformação de uma matéria em outra, é natural do planeta. Contudo, mostra-se hoje capturada pelos sistemas regentes para fins lucrativos e individuais. É possível pensar em uma erosão que escape às capturas de organização dos territórios? Ou melhor, uma erosão que, em seu resto, gere outros territórios?

Penso então sobre o processo erosivo. Para que ele aconteça, são necessárias duas forças em contato: um agente de expressão (como é o vento ou a água de um rio) e uma matéria no espaço (uma montanha, uma rocha). Ao observar as linhas sobrepostas que compõem as falésias da praia de Torres, suas diferentes direções e desenhos, pensei sobre a maleabilidade dessa matéria erodida, o basalto, o arenito, e o que restaria desse processo. Como se formam estas linhas, como se misturas as matérias. A erosão, como movimento de transmutação, produz excrementos, desde os grãos que não foram acoplados à nova placa concreta ao sons que esse atravessamento geram. Pois, toda erosão produz som. E, assim, apresenta-se um interesse de pesquisa: o som enquanto expressão pela qual poderíamos passar a perceber mais intimamente este espaço erodido. 

Quando falo de espaço erodido, refiro-me à dois: a terra e Terra. A Terra, com T maiúsculo, como os relevos, os oceanos, o espaço físico do fora: as materialidades que nos circundam, nossa casa, as árvores, a cidade, o mar... A terra com t minúsculo, ao contrário, abrange as microrrelações, os átomos que nos compõem enquanto matéria, enquanto corpo, pensamento: é o espaço interno, das cavidades do rosto, dos territórios do silêncio dos ouvidos tampados. Foi ao observar a falésia erodir que algo ficou latente: meu corpo, exposto ao vento e as gotículas de mar que se acumulam sobre a minha pele, não estaria também em processo de erosão? A partir dessa questão, podemos dizer que ambos espaços, o de fora e o de dentro, coexistem, em um intenso processo de erosão. E assim estão, constantemente, produzindo sons.

Atualizo o espaço possível de se erodir: não mais só a montanha, como o sujeito que está sobre ela. Afinal, tudo é corpo. As intempéries também são atualizadas: não somente o vento, a água, mas também os sentimentos mais profundos de solidão. É desta maneira que proponho percebermos o espaço do planeta através das microerosões, do desejo e do sentir, do corpo que também modifica o entorno ao se erodir. Acredito que desta maneira possamos reperceber as macroerosões que tanto se fazem presente, desde a erupção de um vulcão ao desmatamento desenfreado da Amazônia. É sobre fazer visível o micro, para deslocar o macro. E o som, com sua potência invisível que destrói e constrói, que é tanto agente quanto resto, apresenta-se como meio de percepção destes processos de transformação. 

O projeto toma forma de um curta-metragem de duração aproximada de 24 minutos, que desenvolve-se a partir de 5 microerosões animadas: do brincar, do tempo, da língua, da função e da morada. Cada uma dessas animações foi desenvolvida em parceria com outros artistas, e por meio de uma dinâmica também erosiva, sob o ilustrar de um "texto-sonoro", e não de uma descrição das cenas. A trilha sonora também foi composta neste processo, na tentativa de encontrar sons que traduzissem as palavras para então se sobreporem às imagens. 

Sinopse: O que erode para além da vista? É no encontro com as maiores marés do mundo, na Baía de Fundy, em que se revelam milhares de microuniversos erosivos possíveis, do corpo ao solo e também à memória. Nesta viagem ao desconhecido, são as palavras e os sons que nos guiam em uma provocação do que é "ver" e do que é "ser", no entre do que chamamos real e fantástico: um convite ao imaginário de um mundo que acontece no encontro de dois e que está, a todo momento, erodindo.

 

Ficha Técnica:

Roteiro e direção: Camila Proto

Trilha Sonora Original: Rudah Guedes

Produção musical e mixagem de som: Rudah Guedes e Pedro Sodré

Animações (por ordem de apariçao):

Kaue Nery

Vitória Tadiello

Camila Proto

Clara Trevisan

João Salazar

 

 

Este filme foi contemplado pelo Edital Emergencial de Auxílio à Cultura da Prefeitura de Porto Alegre e pelo FAC Digital da Feevale.

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