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Escutatório da Guanabara
participatory sound sculpture
(2025)

Esta peça foi fabricada em colaboração com Yan Molinos,
utilizando ABS à base de algas fornecido pela FlexyGreen.

PT

O que acontece às margens de um ecossistema marinho continuamente silenciado pelo ruído intenso de uma cidade costeira? Quais instrumentos seriam capazes de medir o verdadeiro impacto da poluição sonora metropolitana, considerando que muitos de seus efeitos ultrapassam as escalas do tecnicamente mensurável?


Inspirado tanto pelas tecnologias acústicas de antecipação — que anteriormente à invenção do radar buscavam captar vibrações e frequências à distância — quanto pelo entendimento ancestral de que o oceano é uma entidade em contínuo diálogo transtemporal, o Escutatório da Guanabara propõe-se como um mobiliário urbano participativo que convida o público a escutar o além-paisagem da Baía. Trata-se de um dispositivo de fabulação acústica que, em vez de medir, mensurar, interpretar, imagina: faz do ato de ouvir uma forma de tradução especulativa sobre o inaudível, sobre o que ainda não pode ser ouvido.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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​​​​​​Acionado pelo mito tupi-guarani segundo o qual o encadeamento montanhoso que conforma a Baía de Guanabara é, na verdade, um gigante adormecido, o dispositivo atua como um aparato fabulador — um instrumento para escutar-imaginando, ou imaginar-escutando, o que soa para além da paisagem costeira. O ronco do gigante se confunde com o ronco de um motor de barco; o canto dos pássaros atravessa o giro dessa observação de ouvidos abertos; e, assim, vai-se compondo um imaginário do que o corpo d’água poderia soar entre espaços e tempos — se não estivesse abafado pelas altas frequências da cidade.


A obra só existe quando acionada pelo público, que repousa a cabeça entre duas grandes orelhas e se permite imaginar, acústica e poeticamente, uma outra Guanabara. Pela sua rotação de 180 graus, o dispositivo transforma o gesto da escuta em uma busca: uma varredura possível pelas flutuações sonoras que estende o campo auditivo das margens do Porto Maravilha até a Ponte Rio-Niterói, convertendo o passeio público do Museu do Amanhã em um espaço generativo de pesquisa, em um passeio atento voltado para a escuta. Na obra, o público experimenta uma postura investigativa, quase científica, porém atravessada pelo sensível e pelas memórias individuais de cada um.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Todavia, impressa em 3D com filamento de algas marinhas, material sustentável fornecido pela FlexyGreen, a peça postula uma provocação acerca da capacidade dos materiais de escutar/ser escutados. O mobiliário urbano feito de ABS de algas nos lança às estratégias de filtragem — naturais à tais seres vivos mas também à nós, diante do pensamento crítico e da observação sensível — que permitem uma atenção à paisagem sonora marinha — bem como à sua constante disputa com as frequências que emanam da metrópole — como um gesto que ultrapassa a estética da contemplação.

 

 

Trata-se assim de um exercício de escuta semiótico-material, que reivindica o ecossistema ocêanico como sujeito de expressão e memória, convocando-nos a imaginar o que dele se cala e ao que dele se espera. Entendo, assim, que o Escutatório da Guanabara propõe um exercício de sensibilidade ecológica: uma experiência de escuta compartilhada onde mito, ciência e arte se entrelaçam para revelar a sonoridade latente de uma baía viva em constante opressão.
 

Agredecimentos
Ricardo Michel, Yan Molinos, Flexy Green

EN

What happens on the shores of a marine ecosystem continuously silenced by the intense noise of a coastal city? What instruments would be capable of measuring the true impact of metropolitan noise pollution, considering that many of its effects go beyond the scales of what is technically measurable?

 

Inspired both by acoustic anticipation technologies—which, prior to the invention of radar, sought to capture vibrations and frequencies from a distance—and by the ancestral understanding that the ocean is an entity in continuous transtemporal dialogue, the Guanabara Listening Room proposes itself as a participatory piece of urban furniture that invites the public to listen to the beyond-landscape of the Bay. It is an acoustic fabulation device that, instead of measuring, quantifying, interpreting, imagines: it makes the act of listening a form of speculative translation about the inaudible, about what cannot yet be heard.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Triggered by the Tupi-Guarani myth that the mountain range forming Guanabara Bay is, in fact, a sleeping giant, the device acts as a fabulizing apparatus—an instrument for listening—imagining, or imagining—listening to what sounds beyond the coastal landscape. The giant's roar merges with the roar of a boat engine; the birdsong permeates the rotation of this observation with open ears; and thus, an imaginary of what the body of water could sound like between spaces and times is composed—if it were not muffled by the high frequencies of the city.

 

The artwork only exists when activated by the public, who rest their heads between two large ears and allow themselves to imagine, acoustically and poetically, another Guanabara. Through its 180-degree rotation, the device transforms the act of listening into a search: a sweep possible through the sonic fluctuations that extends the auditory field from the banks of Porto Maravilha to the Rio-Niterói Bridge, converting the public walkway of the Museum of Tomorrow into a generative space for research, an attentive stroll focused on listening. In the artwork, the public experiences an investigative, almost scientific posture, yet one traversed by sensitivity and the individual memories of each person.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Nevertheless, 3D printed with seaweed filament, a sustainable material supplied by FlexyGreen, the piece poses a provocation about the capacity of materials to listen/be listened to. The urban furniture made of seaweed ABS leads us to filtering strategies—natural to these living beings but also to us, in the face of critical thinking and sensitive observation—that allow attention to the marine soundscape—as well as its constant dispute with the frequencies emanating from the metropolis—as a gesture that transcends the aesthetics of contemplation.

 

 

It is thus a semiotic-material listening exercise, which reclaims the oceanic ecosystem as a subject of expression and memory, inviting us to imagine what is silenced from it and what is expected of it. I understand, therefore, that the Guanabara Listening Room proposes an exercise in ecological sensitivity: a shared listening experience where myth, science, and art intertwine to reveal the latent sound of a living bay under constant oppression.

 

 

Special thanks to

Ricardo Michel, Yan Molinos, Flexy Green

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