Língua-mãe

2017

A instalação sonora Língua-mãe é uma proposta interativa de reconfiguração da linguagem. Em Língua-mãe, a discussão sobre as possibilidades da língua se torna iminente na recombinação de significados e significâncias, destituindo as letras de fonemas e as palavras de imagens pré-codificadas.

A instalação funciona a partir de um programa de computador que é ativado por um teclado. Para cada letra teclada, um banco sonoro de mais de 1200 palavras é ativado randomicamente, e disparado nas caixas de som. Assim, quando o interator se propõe a escrever alguma coisa, ele está automaticamente desconstruindo a imagem mental que possuía, pois acaba sendo bombardeado com palavras inesperadas e aleatórias ao mesmo tempo que as digita. A inserção de palavras na aleatoriedade do significar de cada letra confere ao interator o poder de criar signos outros a partir daquilo que escreve.

Por exemplo, o sujeito escreve a palavra ALEGORIA. Ao digitar a letra A, ele escuta ARMAÇÃO, em L, LÂMINA, em E, ENTIDADE e assim por diante. Desta forma, a instalação sonora estabelece um vínculo com o espectador, transformando-o em agente ativo. O público é o que faz a obra existir: sem o diálogo com o mesmo, a obra não possui função alguma.

A maquinação Lingua-mãe prevê um corpo que experimente essa transformação do código linguístico. Um código matriarcal - em que todas as palavras curadas são femininas, e onde a voz que as pronuncia é a da artista -, deslocando o vocábulo à uma escuta expandida de estranhamento e reconhecimento. E ainda: uma preposição de modelo de uma proto-linguagem, desta língua-mãe de onde todas as outras línguas do mundo derivam, e suas consequentes mudanças.

MANIFESTO 

língua-mãe, por 

 

menos dias de signos-estanque, 

marteladas em sílabas dadas,

palavras de fácil digestão. 

 

complexos territórios desenhados pelas melodias de fuga do dito.

 

outras estruturas discursivas,

moles, no devir transição,

desse abc-em-fluxo das veias abertas do código.

 

uma língua materna, que jorra em gozo a cada sobreposição,

de ritmos, falas, quebras,

num imaginário corrompido, sem tempo de recompor-se,

enquanto o ouvido desafina, nesse íntimo e acelerado lapso de regresso ao útero. 

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This sound installation is an interactive proposal for language reconfiguration. In Mother Language, the discussion about the possibilities of language becomes imminent in the recombination of meanings and significance, depriving the letters of phonemes and the words of pre-coded images.

The installation works from a computer program that is activated by a keyboard. For each letter typed, a sound bank of over 1200 words is randomly activated and fired in the speakers. Thus, when the interactor proposes to write something, he is automatically deconstructing the mental image he possessed, as he is bombarded with unexpected and random words as he types them. The insertion of words in the randomness of the meaning of each letter gives the interactor the power to create other signs from what he writes.

For example, the subject writes the word JOY. As he types the letter A, he hears FRAME, L, BLADE, E, ENTITY, and so on. Thus, the sound installation establishes a bond with the viewer, transforming him into an active agent. The public is what makes the work exist: without dialogue with it, the work has no function whatsoever.

Mother tongue machining provides for a body that experiences this transformation of the language code. A matriarchal code - in which all healed words are feminine, and where the voice that speaks them is that of the artist - shifting the word to an expanded listening of strangeness and recognition. And yet: a model preposition of a proto-language, of this mother tongue from which all the other languages ​​of the world derive, and their consequent changes.

 

MANIFEST

 

mother tongue for

 

less days of watertight signs,

hammered into given syllables,

words that are easy to digest.

 

complex territories designed by the escape melodies of the said.

 

other discursive structures,

soft, no transition,

this abc-in-flow of open veins of code.

 

a mother tongue, which gushes in joy with each overlap,

of rhythms, speech, breaks,

in a corrupted imaginary, with no time to compose itself,

while the ear tunes in that fast, intimate lapse of return to the womb.

 

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